← Voltar ao Blog
Síndrome do impostor preto é real?

Síndrome do impostor preto é real?

Publicado: 04/08/2026 às 02:28
Autor: Administrador PEM
Tipo: Opinião

Será que essa expressão pode ser aplicada para a pessoa preta? Neste artigo eu lhe convido a refletir sobre essa questão baseado em minha experiências e pesquisas sobre o tema fiz algumas descobertas interessantes, mas não tenho a pretensão de trazer uma solução, mas espero que este artigo possa de alguma forma lhe oferecer acolhimento.

Compartilhe este artigo

Ajude esta reflexão a chegar a mais pessoas.

Numa conversa com a minha esposa, ela sugeriu que eu falasse sobre um tema difícil: a chamada "síndrome do impostor" vivida por pessoas pretas. Confesso que não me senti preparado para escrever sobre isso. Ironia à parte, essa própria hesitação já diz muito sobre o assunto.

Decidi escrever mesmo assim, na esperança de que outras pessoas se reconheçam nessas linhas. Não tenho a pretensão de apagar o que pessoas de outros gêneros e etnias também sentem, minha intenção é dividir aqui a minha experiência e a minha leitura sobre o tema, aberto ao diálogo nos comentários e nas mensagens.

Um termo que não nasceu para nós

O conceito de "síndrome do impostor" foi criado em 1978 pelas psicólogas norte-americanas Pauline Clance e Suzanne Imes, a partir de um estudo com mulheres bem-sucedidas que, mesmo reconhecidas profissionalmente, sentiam fraudes prestes a serem descobertas. A ideia pressupõe algo importante: a pessoa já está dentro do espaço de poder, já tem acesso, já foi validada  e mesmo assim duvida de si.

Esse é o ponto que quero destacar. Quando pessoas pretas usam esse termo para nomear o que sentem, corremos o risco de nos apropriarmos de um conceito construído sobre uma realidade que não é a nossa. Nós não estamos exatamente duvidando de um privilégio que já possuímos. Em grande parte dos casos, nunca chegamos a ocupar o espaço que supostamente deveríamos duvidar de merecer.

Ruchika Tulshyan e Jodi-Ann Burey, no artigo "Stop Telling Women They Have Imposter Syndrome" (Harvard Business Review, 2021), fazem essa mesma crítica: tratar esse sentimento como um problema individual de autoconfiança esconde as desigualdades reais do ambiente de trabalho  vieses de gênero e racismo estrutural que moldam quem chega aonde, e como. Para pessoas negras, dizem as autoras, o rótulo de "síndrome" transforma em patologia pessoal o que é, na verdade, resposta a um sistema que segue de portas fechadas.

No Brasil, o jurista Silvio Almeida ajuda a entender por que isso acontece. Para ele, o racismo não é um desvio de conduta de indivíduos isolados, nem apenas um problema das instituições: é estrutural, parte do funcionamento "normal" da sociedade  das relações econômicas, políticas e até afetivas. Como ele resume, a sociedade brasileira funciona como uma máquina que produz desigualdade racial de forma contínua. Se é a própria estrutura que nos barra, o problema não está em nós.

Por isso, prefiro não chamar isso de síndrome. Prefiro pensar nisso como sintoma;  sintoma de um país que, há séculos, ensina pessoas pretas a duvidar do próprio lugar no mundo.

As raízes: do banzo à eugenia

Para entender esse sintoma, é preciso voltar no tempo.

Durante mais de 350 anos de escravização no Brasil, meus ancestrais foram trazidos à força, em condições desumanas. Muitos desenvolveram o que se convencionou chamar de banzo. O historiador Clóvis Moura, em seu Dicionário da Escravidão Negra no Brasil (2004), descreve o banzo como um estado profundo de depressão psicológica que acometia africanos recém-desembarcados  uma tristeza tão intensa que muitas vezes levava à morte.

A pesquisadora Ana Maria Galdini Raimundo Oda, em artigo publicado na Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental (2009), descreve o banzo como a sobreposição de um quadro depressivo a situações de desenraizamento súbito, confinamento, terror e fome. Em muitos casos, essa dor não encontrava outra saída além do suicídio  nos rios, por envenenamento, até pela ingestão de terra. Quando não levava à morte, deixava sequelas físicas e mentais profundas.

Tento imaginar o que é ser arrancado de casa, sem direito a nada, tratado como propriedade até o fim da vida. É uma dor que dificilmente cabe em palavras  e que, para mim, ajuda a explicar por que certos sentimentos de inadequação atravessam gerações de pessoas pretas, muito antes de qualquer discussão sobre carreira ou mercado de trabalho.

Pouco antes do fim da escravidão, surgiu ainda outro instrumento de exclusão: a eugenia, teoria sem qualquer base científica criada pelo inglês Francis Galton (1822–1911), que pregava a seleção de seres humanos a partir de características hereditárias. No Brasil, segundo o historiador Fábio Koifman, em "Imigrante Ideal" (sobre o Ministério da Justiça e a entrada de estrangeiros no país entre 1941 e 1945), o próprio governo Getúlio Vargas e parte das elites viam na composição étnica "não branca" da população a explicação para o atraso do país.

Ou seja: por muito tempo, o Estado brasileiro tratou a presença de pessoas pretas como problema a ser corrigido  seja pela escravização, seja pela política migratória voltada a "branquear" a nação. Não é exagero dizer que essa herança segue viva na forma como o mercado de trabalho, as universidades e os espaços de poder ainda tratam quem é preto hoje.

O presente: dados e vivência

Um estudo publicado na Revista de Estudos e Pesquisas sobre as Américas (RE.A.SE.) sobre racismo e saúde mental da população negra aponta que as barreiras impostas pelo racismo estrutural produzem adoecimento psíquico real  depressão, ansiedade e o próprio sentimento chamado de "síndrome do impostor" , mesmo quando a pessoa preta está plenamente preparada para o cargo que ocupa ou deseja ocupar. O problema não é falta de preparo. É a dificuldade estrutural de ocupar posições de liderança.

Tenho vivido isso de perto. Tive acesso a boas oportunidades porque meus pais se esforçaram imensamente para me dar, a mim e ao meu irmão, uma educação de qualidade. Sou grato por isso  sem essa determinação, eu não estaria aqui. Mas isso não significa que o caminho tenha sido livre de barreiras.

Desde o início da minha jornada profissional, na adolescência, o mundo me disse, de formas sutis e repetidas, que eu não estava pronto para certas oportunidades. Isso cria gatilhos de insegurança. Um dia, um amigo  homem preto, um dos melhores profissionais que conheço  me contou que nunca havia sido promovido em toda a carreira. Ele cresceu trocando de empresa, não subindo dentro delas. Reconhecimento que não vinha de dentro, ele foi buscar fora.

Ouço colegas dizerem que recebem duas ou três propostas de emprego por semana. Essa nunca foi a minha realidade  nem de perto. Por muito tempo, pensei que a diferença estivesse em mim: talvez eu devesse me expor mais, fazer mais um curso, buscar mais uma especialização. Fiz tudo isso. E ainda assim, sinto que existe um teto que se repete, não porque falte capacidade, mas porque algo, fora de mim, segue dizendo que não somos merecedores.

Não é impostura. É herança e estrutura.

Se voltarmos ao início: a "síndrome do impostor" descreve uma dúvida interna sobre um mérito que já foi reconhecido. O que pessoas pretas vivem é diferente  é a soma de um trauma histórico transmitido por gerações (o banzo) com barreiras concretas e atuais impostas por uma sociedade estruturalmente racista, como bem descreve Silvio Almeida.

Não é uma sabotagem pessoal. Não é falta de preparo. É o efeito acumulado de mais de quatro séculos em que o Brasil, de formas variadas, escravização, eugenia, exclusão institucional , ensinou pessoas pretas a duvidar do próprio lugar.

Reconhecer essa diferença importa. Porque, enquanto tratarmos isso como um problema individual de autoestima, seguiremos propondo soluções individuais  mais um curso, mais uma especialização, mais autoconfiança  para um problema que é, antes de tudo, estrutural e coletivo.

Celebrar as próprias conquistas continua sendo necessário, ms a transformação real só vem quando as empresas, as instituições e o país encaram de frente o tamanho da barreira que seguem impondo  e trabalham para derrubá-la.

Contribuição: Luciana Martins Revisão Literária e Técnica: Lucas Atílio

Referência Bibliográfica

Clóvis Moura — Dicionário da Escravidão Negra no Brasil. São Paulo: Edusp, 2004. (obra impressa; não localizei versão gratuita online — se quiser, posso verificar disponibilidade em acervos digitais como Estante Virtual ou bibliotecas universitárias)

Ana Maria Galdini Raimundo Oda — "Escravidão e nostalgia no Brasil: o banzo". Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, v. 11, n. 4, p. 735-761, dezembro de 2008 (não 2009 — vale corrigir a data no artigo).

 

Fábio Koifman — Imigrante Ideal: o Ministério da Justiça e a Entrada de Estrangeiros no Brasil (1941-1945). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012. (obra impressa; não há versão online gratuita completa que eu tenha localizado)

Ruchika Tulshyan e Jodi-Ann Burey — "Stop Telling Women They Have Imposter Syndrome". Harvard Business Review, fevereiro de 2021. https://hbr.org/2021/02/stop-telling-women-they-have-imposter-syndrome

Silvio Almeida — Racismo Estrutural (coleção Feminismos Plurais, org. Djamila Ribeiro). São Paulo: Pólen, 2019. (obra impressa; um bom resumo dos três conceitos — racismo individual, institucional e estrutural — está neste artigo de apoio: https://confluentes.org.br/2023/01/31/racismo-estrutural-o-que-e-causas-e-consequencias/ e no verbete da Wikipédia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Racismo_estrutural)

Nota Importante: Este texto não expressa necessariamente a opinião do Pretos em Movimento, mas reflete a visão de seus autores.